DOBROU A APOSTA

Após Justiça dos EUA barrar tarifaço, Trump anuncia sanções extras de 10% e ‘postura ainda mais rigorosa’

Magnata chamou a Suprema Corte de 'desleal' e disse que vai estudar outras formas para justificar sua guerra comercial

Trump não reconhece ter cometido algum erro
Donald Trump afirmou que “morreria uma civilização inteira para nunca mais ser ressuscitada” | Crédito: Mandel NGAN / AFP

Desafiador, o presidente Donald Trump anunciou nesta sexta-feira (20) uma nova tarifa geral de 10% após uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que considerou que ele havia excedido sua autoridade ao impor direitos aduaneiros como se fosse uma emergência nacional.

Trump criticou duramente a Suprema Corte por considerá-la “desleal” e afirmou que está impondo uma tarifa de 10% “em todos os setores”, com efeito imediato, e prometeu adotar uma postura “ainda mais rigorosa” em relação às tarifas.

“O governo recorrerá agora a outras leis, principalmente ao código comercial aprovado em 1974, para continuar tributando todas as importações”, disse Trump poucas horas depois do revés na Suprema Corte, de maioria conservadora.

O presidente dos Estados Unidos acusou diretamente alguns magistrados da Corte de estarem submetidos a “interesses estrangeiros”. O republicano, que baseou grande parte de sua política externa em uma série de tarifas variáveis a seu critério, reconheceu, no entanto, que não está claro se terá de reembolsar o dinheiro arrecadado até agora, da ordem de US$ 140 bilhões (R$ 724 bi) em 2025, segundo especialistas.

Esse aspecto “não foi abordado pela Corte”, lamentou Trump diante dos jornalistas, apontando que os litígios nos tribunais podem durar “anos”. O juiz Brett Kavanaugh, que divergiu da opinião majoritária (6 a 3) da Corte, advertiu que esse processo judicial poderia se tornar uma “bagunça”.

Defensor do lema “Estados Unidos primeiro”, Trump não reconheceu nenhum erro ou precipitação ao utilizar a arma das tarifas, que a Suprema Corte lembrou estar nas mãos do Congresso. O erro foi dos seis magistrados que votaram contra, por motivos “politicamente corretos”, afirmou.

Neste momento, os Estados Unidos aplicam uma taxa tarifária média de 16,8%. Nas importações vindas do Brasil, esse percentual de cerca de 30%.

A Suprema Corte decidiu que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (Ieepa), de 1977, “não autoriza o presidente a impor tarifas”. Essa decisão refere-se aos direitos aduaneiros apresentados como “recíprocos” por Donald Trump, mas não aos aplicados a setores específicos como automóvel, aço ou alumínio.

Trump já começou a utilizar as tarifas como arma de negociação durante seu primeiro mandato (2017-2021), mas ao retornar ao poder, em janeiro de 2025, anunciou imediatamente que utilizaria a Ieepa para impor novos tributos a praticamente todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos. Além de tarifas por motivos comerciais, Trump promulgou tarifas aduaneiras especiais a parceiros importantes como México, Canadá e China por causa do narcotráfico e da imigração.

Trump também utilizou a Ieepa para pressionar países em guerra e, posteriormente, se vangloriou de ter conseguido resolver oito longos conflitos internacionais em 2025, graças à ameaça de tarifas.

Mas o alto tribunal lembrou nesta sexta-feira que “se o Congresso tivesse tido a intenção de conceder o poder distinto e extraordinário de impor tarifas” por meio da Ieepa, “o teria feito de forma expressa, como fez de maneira sistemática em outros estatutos tarifários.”

A Bolsa de Nova York, que havia aberto nesta sexta-feira em queda, subiu após o anúncio da Corte: o índice Dow Jones avançava 0,3% e o Nasdaq 1,0%. Além da decisão, os Estados Unidos acordaram nesta sexta-feira com um resultado econômico fraco: o crescimento em 2025 foi de 2,2%, em comparação com 2,8% no ano anterior.

Um tribunal comercial de primeira instância havia decidido em maio que Trump extrapolou sua autoridade com tarifas generalizadas e bloqueou que a maioria delas entrasse em vigor, mas esse resultado havia ficado suspenso diante do recurso do governo. A União Europeia declarou que estudava “atentamente” a decisão, e a Câmara de Comércio canadense a qualificou como um “reajuste”.

“O Canadá deve se preparar para novos mecanismos, mais contundentes, (…) potencialmente com efeitos mais amplos e perturbadores”, disse a presidente da Câmara de Comércio, Candace Laing, em um comunicado.

A oposição democrata voltou a criticar a política econômica de Trump, a menos de dez meses das eleições legislativas de meio de mandato.

“As fracassadas políticas econômicas de Donald Trump e a guerra comercial global travada com tarifas irresponsáveis, intermitentes, contra nossos aliados e parceiros comerciais geraram enorme incerteza”, declarou o líder da bancada democrata na Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries.

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