O Sistema Único de Saúde (SUS) é uma das principais políticas públicas do país, garantindo o direito à saúde para milhões de brasileiros. Para seu fortalecimento, é essencial formar profissionais que, além da técnica, compreendam e defendam o sistema, atuando com humanização, cuidado integral e valorização da Estratégia Saúde da Família na prevenção e promoção da saúde. Nesse sentido, movimentos sociais, em parceria com o Ministério da Saúde, por meio da SGTES, organizam o Projeto Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde (VER-SUS), iniciativa presente em diversos estados e que chega ao Ceará entre março e abril, em parceria com o Movimento Brasil Popular e o Levante Popular da Juventude.
Em Beberibe, a vivência já ocorreu de 16 a 22 de março; em Itapipoca, de 2 a 8 de março; e, em Fortaleza, acontece de 6 a 12 de abril, reunindo estudantes e residentes da área da saúde para vivenciar, na prática, o funcionamento do sistema público nos territórios.
A iniciativa integra o Programa Nacional de Vivências no SUS e tem como objetivo fortalecer a formação de profissionais comprometidos com o trabalho em equipe, a equidade e a transformação dos modelos de atenção e gestão em saúde. A proposta também busca aproximar estudantes e profissionais da realidade dos territórios, incentivando a participação social e a integração entre ensino, serviços de saúde e comunidade.

De acordo com a enfermeira e integrante da equipe local de trabalho de projetos do VER-SUS, Raquel Áquila, o programa surgiu a partir da articulação entre movimento estudantil, gestores e professores, com o objetivo de aproximar a formação acadêmica da realidade do sistema público de saúde. “O VER-SUS é um programa do Ministério da Saúde que busca fazer essa ponte entre teoria e prática dentro do Sistema Único de Saúde. A proposta é que estudantes da área da saúde possam vivenciar o SUS nos territórios e nos equipamentos de saúde, promovendo também debates críticos sobre o sistema”, explica.
A enfermeira lembra que o surgimento do programa teve início nos anos 2000, durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas sofreu interrupções em períodos de redução de investimentos em saúde e educação. “Agora, ele retorna com força em 2026, quando o Ministério da Saúde lança a maior edição do VER-SUS de todos os tempos, entre todos os editais já publicados”, afirma.
A proposta do VER-SUS é proporcionar vivências em diferentes espaços da rede pública de saúde, permitindo que os participantes conheçam na prática o funcionamento do SUS em seus diversos níveis de atenção. As atividades incluem visitas e experiências em unidades da atenção primária, serviços especializados, hospitais, espaços de vigilância em saúde e instâncias de participação social.
As experiências são organizadas por equipes locais formadas por movimentos sociais, estudantes, professores e instituições parceiras. “Os estudantes podem visitar Unidades de Saúde da Família, serviços de atenção secundária, setores de gestão e vigilância sanitária. É uma experiência imersiva que dura entre cinco e sete dias, na qual os participantes permanecem alojados no mesmo local e realizam debates coletivos sobre o que vivenciam nos serviços”, explica Raquel. Durante as atividades, os participantes passam o dia nos territórios e, ao retornar ao alojamento, participam de discussões coletivas que abordam temas como controle social, Estratégia Saúde da Família e as bases políticas do SUS.
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Formação a partir da realidade dos territórios
Marcado pela diversidade socioambiental que articula áreas rurais e costeiras, com presença de pescadores artesanais, marisqueiras, agricultores familiares e outras populações tradicionais, o município de Beberibe possui grandes reservas ambientais e tem como destaque a Reserva Extrativista da Prainha do Canto Verde, referência na gestão comunitária do território e na defesa dos modos de vida tradicionais.
Esse contexto configura um cenário estratégico para a compreensão das relações entre saúde, ambiente, trabalho e justiça socioambiental, em consonância com a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCFA).
Para Áquila, essa realidade torna a região um espaço estratégico para compreender como o SUS se organiza em diferentes contextos sociais. “Escolhemos como eixo temático o estudo da saúde das populações do campo, das florestas e das águas, grupos cujos modos de vida estão profundamente ligados ao território e ao ambiente”, afirma.

Na edição realizada em Itapipoca, por exemplo, os participantes visitaram comunidades indígenas, assentamentos da reforma agrária e comunidades quilombolas. “Visitamos uma Unidade Básica de Saúde indígena, unidades de saúde da família em assentamentos e o Quilombo de Nazaré. Foi uma experiência muito rica para compreender as demandas e também as potencialidades relacionadas à saúde nesses territórios”, relata a enfermeira. A vivência permitiu ainda que estudantes refletissem sobre as condições de vida de diferentes grupos sociais, incluindo mulheres, população negra, juventudes rurais e pessoas LGBTQIA+.
Para a estudante de Enfermagem da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Jamille Correia, que participou pela primeira vez da vivência em Itapipoca, a experiência trouxe um novo olhar sobre o sistema público de saúde. “Eu já conhecia o VER-SUS por amigos que tinham participado, mas essa foi minha primeira experiência. A proposta de imersão em um território diferente e o contato com outras realidades foi algo que me motivou muito”, conta. Durante a vivência, Jamille teve contato direto com comunidades tradicionais, o que, segundo ela, contribuiu para ampliar sua compreensão sobre as políticas públicas de saúde.
“É muito diferente ler sobre políticas públicas em documentos e vivenciar isso na prática. Quando você visita comunidades quilombolas ou indígenas e escuta das próprias pessoas quais são os desafios para acessar a saúde, isso muda completamente a forma como enxergamos o cuidado”, afirma. A estudante destaca ainda que a experiência também foi importante para refletir sobre o papel do SUS na garantia do direito à saúde. “Muitos estudantes acabam desvalorizando o SUS e dizem que não querem trabalhar no sistema. Mas, durante a vivência, a gente percebe a potência que ele tem e como ele é fundamental para garantir assistência a populações que muitas vezes estão distantes dos serviços”, diz.

Para Antonio Matheus, estudante de Enfermagem da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), que participou da edição de retomada do VER-SUS em 2025, em São Luís (MA), a experiência permite compreender o sistema de saúde para além da teoria aprendida na universidade. “Embora a gente tenha estágios durante a graduação, a vivência do VER-SUS proporciona uma imersão muito mais profunda. Passamos a entender como o SUS se capilariza nos territórios e como ele se faz presente no cotidiano das populações”, afirma. Segundo o estudante, o contato direto com os serviços também permite perceber os desafios e contradições do sistema público de saúde. “Quando observamos a realidade com mais atenção, percebemos que o SUS é muito bem estruturado no papel, mas ainda enfrenta desafios na prática. Isso pode gerar indignação, mas também desperta em nós a vontade de assumir um papel mais ativo na transformação dessa realidade”, explica.
Na avaliação de Matheus, vivências como o VER-SUS contribuem para formar profissionais mais conscientes sobre o caráter político do sistema de saúde. “O SUS é uma política pública, e isso significa que precisamos compreender seus desafios, suas falhas e também seu potencial. A vivência permite essa análise crítica e nos faz perceber que a construção de um sistema de saúde mais forte depende de organização coletiva e participação social”, conclui.
Ao promover a aproximação entre formação acadêmica e realidade dos serviços, o VER-SUS busca formar profissionais mais sensíveis às necessidades da população e comprometidos com a defesa e o fortalecimento do sistema público de saúde brasileiro.
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