O governo de Mato Grosso unificou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) com o Corpo de Bombeiros em 2025, demitiu 56 profissionais e reduziu a estrutura do serviço, o que levou ao fechamento de bases e à diminuição do atendimento na região de Cuiabá. A medida é alvo de questionamentos de trabalhadores e de um pedido de investigação enviado ao Ministério Público Estadual (MPE), diante do risco de prejuízo ao atendimento de urgência.
Após a mudança, o número de profissionais do Samu caiu de 224 para 168. Segundo relatos de trabalhadores e do sindicato, a redução levou ao fechamento de unidades e à diminuição do horário de funcionamento. Desde outubro de 2025, cinco das 12 bases que existiam na região de Cuiabá deixaram de operar por falta de pessoal. Também há relatos de que protocolos do Samu não estão sendo seguidos sob a gestão dos Bombeiros, o que teria provocado desorganização no atendimento.
De acordo com o Sindicato dos Servidores Públicos da Saúde do Estado de Mato Grosso (Sisma-MT), foram desligados 22 enfermeiros, 24 técnicos de enfermagem e 10 condutores socorristas. “Quase todos os dias temos unidades do Samu sem funcionar por falta de pessoal”, afirma o diretor do sindicato, Carlos Mesquita.
Ele conta que as demissões atingiram servidores contratados. Parte desses vínculos poderia ter sido renovada, “mas o governo optou em não renovar porque está dando prioridade aos bombeiros. Temos concursados aprovados que poderiam ser chamados para o Samu”, diz. Até o momento, foram convocados dois servidores.
Para o sindicato, a fusão não se confirma na prática.
Investigação
O deputado estadual Lúdio Cabral (PT) pediu ao Ministério Público que apure a legalidade das demissões e a adequação da reestruturação às normas do Sistema Único de Saúde (SUS). A ação, no entanto, foi arquivada pelo MPE, ao considerar a fusão uma medida administrativa da alçada do governo estadual. O deputado agora recorrerá ao Ministério Público Federal.
“O Samu é um serviço essencial integrante do SUS, responsável pelo atendimento pré-hospitalar móvel em situações críticas, como acidentes, infartos e acidentes vasculares cerebrais”, diz o deputado.
“As normas do Ministério da Saúde indicam a necessidade de manutenção de estrutura operacional contínua, qualificada e suficiente para atendimento da população, especialmente no que se refere à atuação de profissionais com formação específica na área da saúde, responsáveis pelo atendimento pré-hospitalar clínico, que constitui a função primordial do serviço”, destaca o parlamentar.
“Os bombeiros podem atuar de forma complementar, mas não substituir o Samu. O Samu é parte indivisível da política de urgência e emergência do SUS. É preciso recontratar os profissionais demitidos, fortalecer o Samu e estabelecer uma cooperação de verdade com o Corpo de Bombeiros”, completa.
No documento, Cabral afirma que o serviço exige estrutura contínua e profissionais com formação na área da saúde e alerta para o risco de redução da capacidade operacional. O petista também solicitou a análise de possível violação ao direito à saúde e à continuidade do serviço público.
“Tal cenário projeta impacto direto na continuidade do serviço, com risco concreto de desativação de bases operacionais, dentre as quais se destacam GMAU [Grupamento de Motociclistas de Atendimento de Urgências] 1, GMAU 2, Base B4, Base B5 e Base B8, localizadas na região metropolitana de Cuiabá e Várzea Grande. Essas unidades são estrategicamente distribuídas para garantir tempo-resposta adequado em situações de urgência e emergência, de modo que sua eventual desativação poderá implicar aumento da distância entre as equipes disponíveis e os locais de ocorrência, com consequente elevação do tempo de atendimento e agravamento de quadros clínicos, inclusive com risco à vida”, aponta o ofício enviado ao MPMT.
De acordo com o deputado, a investigação é urgente, “especialmente diante dos elementos que indicam possível redução da capacidade operacional do serviço, em contraste com a necessidade de manutenção de sua plena funcionalidade, conforme exigido pelas normativas do Sistema Único de Saúde”.
As demissões ocorreram entre o fim de março e o início de abril deste ano e atingiram condutores, enfermeiros e técnicos de enfermagem. Ex-funcionários realizaram protestos no centro de Cuiabá e na Assembleia Legislativa do estado pedindo a revisão dos desligamentos e afirmando que a redução da equipe pode aumentar o tempo de resposta a atendimentos graves.
Atendimentos distintos
O médico Pedro Carvalho Diniz, especialista em Clínica geral com atuação em Medicina de Urgência e Emergência no SUS, afirma que o atendimento do Corpo de Bombeiros e o do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência são distintos. O bombeiro atua em situações como acidentes, áreas de difícil acesso, soterramentos e enchentes, com foco em resgate e retirada de vítimas. Segundo ele, o profissional não realiza procedimentos médicos e faz a imobilização e o transporte até uma unidade de saúde.
No caso do Samu, Diniz descreve uma estrutura voltada ao atendimento de saúde no local da ocorrência. As equipes são divididas entre unidades básicas e avançadas, com presença de técnico de enfermagem, socorrista, motorista, enfermeiro e médico. O médico explica que o serviço atende casos clínicos e traumáticos com intervenção imediata e afirma que o médico pode realizar procedimentos como intubação, cardioversão e drenagem torácica.
Diniz também aponta que a equipe do Samu pode atestar óbito e prestar assistência em situações em que o paciente já está sem vida. Ele diz que o serviço funciona integrado a uma central de regulação, que orienta o encaminhamento conforme a estrutura das unidades de saúde.
Sob essa ótica, Diniz considera a medida um “absurdo”. “O profissional bombeiro, por mais capacitado que seja para realizar um resgate ou um primeiro socorro, não substitui o atendimento de um profissional de saúde. São funções complementares e, frequentemente, esses dois atores agem juntos. Em um acidente grave, o bombeiro ajuda na retirada de vítimas das ferragens e na remoção, mas não realiza o atendimento de saúde. Na verdade, o que o governador propõe não é uma fusão, mas o fim do Samu e sua substituição pelo Corpo de Bombeiros”, diz.
Diniz afirma que o sistema de saúde enfrenta restrição de recursos, mas diz que a redução da assistência não resolve o problema. “Isso coloca muitas vidas em risco. O Samu é um grande avanço social e de saúde, sendo quase um marco civilizatório, pois ampliou muito o acesso qualificado das pessoas à saúde. A proposta é uma medida populista barata com diversos problemas”, acrescenta.
“O que vemos é uma ação populista de uma direita que contribui para o desmonte de conquistas importantes para o povo brasileiro e para o SUS. Sem o Samu, os efeitos da pandemia teriam sido piores e o índice de óbitos por acidentes de trânsito ou doenças crônicas seria muito maior. Essa decisão em Mato Grosso representa um risco real por criar um modelo de gestão baseado nesses mesmos argumentos”, conclui.
A Secretaria Estadual de Saúde (SES) afirma que a integração não prejudicou o serviço. Em nota, o governo diz que houve aumento de atendimentos e redução no tempo de resposta após a unificação. “Vale lembrar que antes da integração com o Corpo de Bombeiros eram 9 ambulâncias para atendimento do Samu em Cuiabá, após a parceria esse número saltou para 20 ambulâncias, o que comprova que a prestação do serviço não será impactada”, diz trecho do comunicado.
