PLANO DIRETOR

Câmara aprova lei que amplia verticalização e flexibiliza regras urbanísticas em Porto Alegre

Após votação, base de Melo exibe faixa contra 'caranguejos' e oposição critica avanço da especulação imobiliária

No audio source provided.
Em tom de provocação contra críticos do projeto, vereadores da base do governo Sebastião Melo exibem faixa após aprovação da Lei de Uso e Ocupação do Solo na Câmara de Porto Alegre
Em tom de provocação contra críticos do projeto, vereadores da base do governo Sebastião Melo exibem faixa após aprovação da Lei de Uso e Ocupação do Solo na Câmara de Porto Alegre | Crédito: Elson Sempé Pedroso/CMPA

A Câmara Municipal de Porto Alegre aprovou, na noite desta quarta-feira (13), a Lei de Uso e Ocupação do Solo (Luos), etapa final da revisão do Plano Diretor Urbano Sustentável (PDUS). Com a medida, a cidade flexibiliza regras urbanísticas, amplia o potencial construtivo em diferentes regiões e permite aumento da verticalização. Após a votação, vereadores da base do prefeito Sebastião Melo (MDB) exibiram uma faixa contra os chamados “caranguejos”, termo usado de forma pejorativa contra críticos das mudanças urbanísticas propostas para a cidade.

O texto, enviado pelo Executivo, recebeu 23 votos favoráveis e dez contrários e detalha o zoneamento, os parâmetros urbanísticos, as regras de parcelamento do solo, as alturas das edificações e as atividades permitidas em cada região da cidade. Também foram aprovadas 45 emendas, sete subemendas e uma mensagem retificativa.

Na prática, a nova legislação define como o novo Plano Diretor será aplicado no território. É nela que aparecem as mudanças mais concretas sobre o que pode ser construído, onde pode ser construído e com quais limites. Para urbanistas, movimentos ligados ao direito à cidade e parlamentares de oposição, a aprovação consolida uma revisão marcada por flexibilizações urbanísticas, aumento de potencial construtivo e maior margem para atuação do mercado imobiliário.

Emendas ampliam altura de prédios e flexibilizam ocupação urbana

Entre as alterações aprovadas, algumas ampliam significativamente a altura permitida para prédios em diferentes regiões da cidade. No Menino Deus, uma das emendas eleva o limite das construções de 33 metros para 60 metros. Outra mudança aumenta a altura máxima de edificações de 12,5 metros para 33 metros em uma área entre as avenidas Eduardo Prado, Monte Cristo e Atílio Superti. Já uma terceira emenda libera prédios de até 60 metros em área localizada ao sul da Freeway e da avenida Severo Dullius, onde antes o limite permitido era de apenas 9 metros.

Também foi aprovada uma emenda que permite acrescentar até 4 metros à altura máxima dos prédios para instalação de áreas de lazer e convivência nas coberturas, os chamados rooftops. Outra mudança relevante atinge os bairros Bom Fim e Cidade Baixa. Na prática, a medida amplia o potencial construtivo nessas regiões, permitindo edifícios maiores e mais adensamento urbano em áreas tradicionais da Capital.

No 4º Distrito, uma das emendas aprovadas dispensa novos empreendimentos da exigência de taxa mínima de permeabilidade do solo. Na prática, a medida reduz a obrigação de manutenção de áreas capazes de absorver água da chuva, flexibilização criticada por urbanistas e ambientalistas em uma região marcada por problemas de drenagem e impactos das enchentes.

As mudanças também atingem áreas da zona sul e extremo-sul da Capital, incluindo regiões próximas de Ipanema, Guarujá e Lami. Emendas aprovadas flexibilizam regras urbanísticas em áreas antes mais restritivas, ampliando possibilidades de ocupação e urbanização. Em um dos trechos próximos ao Guaíba, a nova classificação passa a permitir edificações de até 18 metros, cerca de seis andares, onde antes vigoravam regras voltadas à baixa ocupação e preservação ambiental.

A Luos ainda regulamenta o Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), a Outorga Onerosa do Direito de Construir (OODC) e a destinação de recursos ao Fundo Municipal de Gestão de Território e ao Fundo Municipal de Habitação de Interesse Social. A Prefeitura afirma que a lei traz “segurança jurídica”, “eficiência administrativa” e um marco regulatório mais claro para orientar o crescimento urbano.

Críticas ao processo

O debate público sobre o Plano Diretor foi alvo de críticas de movimentos sociais, urbanistas, entidades e parlamentares de oposição, que apontaram risco de aprofundamento da lógica de cidade orientada por interesses privados.

Em debate promovido pelo Brasil de Fato e Sul21 em 30 de março, o promotor Cláudio Ari Pinheiro de Mello, coordenador do Centro de Apoio Operacional de Defesa da Ordem Urbanística e Questões Fundiárias do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), afirmou que o processo apresentava pontos em desacordo com o Estatuto da Cidade. Entre os problemas apontados estavam a ausência de tratamento adequado à prevenção de desastres, a ampliação do índice construtivo em prejuízo à negociação de solo criado e a dependência de regras urbanísticas de decisões das secretarias municipais.

Após a votação, vereadores da base aliada ao prefeito exibiram uma faixa com a frase “Vencemos os caranguejos”, em referência pejorativa usada contra setores críticos a grandes projetos urbanos e mudanças defendidas pelo mercado imobiliário.

Oposição critica emendas aprovadas

Após a votação, vereadores de oposição afirmaram que as mudanças aprovadas aprofundam desigualdades urbanas e ampliam riscos para populações periféricas e áreas vulneráveis da cidade.

Em publicação nas redes sociais, o vereador Erick Denil (PCdoB) afirmou que emendas aprovadas durante a tramitação “afetam negativamente a vida na cidade” e acusou setores da direita e do centro-direita de atuarem “contra a segurança dos mais pobres”.

“O que se vende como avanço é na verdade pouco caso com a vida de quem vive nas periferias da cidade”, escreveu o parlamentar. Segundo Denil, enquanto a oposição tentava “barrar atrocidades e tragédias antes que aconteçam”, a base governista atuou “do lado do patronato, investidores e especulação imobiliária”.

Durante a tramitação do projeto, a vereadora Juliana de Souza (PT) criticou emendas que ampliam a altura permitida para edificações em áreas atingidas pela enchente de 2024. Ao comentar a liberação de prédios de até 60 metros no Menino Deus, afirmou que as mudanças aprovadas não priorizam adaptação climática e prevenção de desastres. “Não estamos adaptando, preparando e protegendo Porto Alegre da realidade de emergência climática”, declarou.

Com a aprovação em plenário, o texto segue para a Comissão de Constituição e Justiça, responsável pela redação final, antes do envio ao Executivo.

Editado por: Marcelo Ferreira

|

Newsletter