O colapso político, institucional e econômico vivido pelo Rio de Janeiro é resultado não apenas dos cinco anos de má gestão do ex-governador Cláudio Castro (PL), mas também do abandono do estado por parte daqueles que foram eleitos para representá-lo. O povo fluminense viu o Rio mergulhar em um ciclo de desgoverno marcado pela renúncia de Castro e de seu vice, Thiago Pampolha, além da cassação do ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), Rodrigo Bacellar.
O maior símbolo da falência desse grupo, que há décadas controla o estado, é justamente a cadeira de governador vazia, ocupada interinamente pelo presidente do Tribunal de Justiça (TJ-RJ), Ricardo Couto. Enquanto isso, sequer sabemos como será escolhido o chefe do Executivo para cumprir o mandato-tampão até dezembro, questão ainda em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF).
Por outro lado, a crise na sucessão de Cláudio Castro também ofusca a importância estratégica do Rio para o Brasil. O estado, que abrigou a capital federal por quase 200 anos, possui a segunda maior economia estadual e municipal do país. Além disso, é o que mais recebe turistas estrangeiros e abriga o maior polo petrolífero, responsável por cerca de 89% da produção nacional de petróleo e 76% da produção de gás natural.
Trata-se, portanto, não de falta de recursos, mas de incapacidade e irresponsabilidade na condução da máquina pública estadual. Assim, aqueles que deveriam ser assistidos em suas necessidades, como o meio milhão de pessoas que convivem com a fome apenas na capital, acabam deixados de lado por um projeto de poder preocupado apenas com os próprios interesses.
Não dá mais para aceitar que o próximo governador não esteja comprometido com a defesa do povo. Precisamos de alguém capaz de olhar, sobretudo, para as dores dos territórios historicamente esquecidos: as mais de 40 mil propriedades da agricultura familiar, os milhares de terreiros e povos originários espalhados pelo estado e as 1,7 mil favelas e comunidades urbanas do Rio.
Há ainda a necessidade de ampliar o olhar sobre as condições de trabalho e segurança nesses territórios. Temos assistido, nos últimos anos, a um profundo descaso com os servidores públicos estaduais, que seguem à espera da recomposição salarial. São profissionais essenciais para o funcionamento do estado e que, ainda assim, continuam sem o devido reconhecimento e valorização.
Repetir o erro da maior parte dos ex-governadores, tratando o Rio apenas pela ótica da segurança pública, como se esse fosse o único problema a ser enfrentado, é ignorar anos de corrupção, despreparo e conivência do poder público com o crime organizado.
Precisamos devolver ao estado o respeito que lhe é de direito e fazê-lo reassumir seu lugar de referência em desenvolvimento econômico, educacional, alimentar, turístico, energético e industrial.
*Marina do MST é deputada estadual pelo PT do Rio de Janeiro.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
