A chancelaria boliviana anunciou nesta quarta-feira (20) a expulsão da embaixadora da Colômbia do país. A medida ocorre após declarações do presidente colombiano, Gustavo Petro, sobre a crise social da Bolívia, na qual vários setores pedem a saída do presidente de centro-direita, Rodrigo Paz.
“O governo boliviano decidiu solicitar que a embaixadora da República da Colômbia acreditada no país conclua suas funções diplomáticas em território boliviano“, afirma o Ministério das Relações Exteriores da Bolívia por meio de nota.
O comunicado prossegue dizendo que a Bolívia “considera essencial que qualquer avaliação ou pronunciamento externo sobre a situação interna do país seja feito com responsabilidade, prudência diplomática e pleno respeito às instituições democráticas e constitucionais vigentes”.
“A Bolívia reafirma que as diferenças políticas e sociais internas devem ser resolvidas exclusivamente no âmbito da Constituição boliviana, por meio de mecanismos democráticos, institucionais e pacíficos, sem interferência externa que possa perturbar a estabilidade institucional ou aprofundar a polarização”, diz o texto.
A medida foi anunciada após Petro afirmar que “a Bolívia está vivenciando um levante popular”, destacando ainda que seu governo “está disposto, se convidado, a buscar soluções pacíficas para a crise política boliviana”.
O presidente colombiano afirmou que a América Latina e o Caribe “devem ser ouvidos pelo mundo, olhando para a paz e falando com franqueza”.
A nota do governo da Bolívia ressalta que a decisão não significa “ruptura nas relações diplomáticas com a República da Colômbia, nem afeta os laços históricos de amizade, cooperação e respeito entre os dois povos e Estados”.
Por que a revolta?
Organizações sociais mobilizadas reafirmaram a continuidade de seus protestos e exigiram que o governo atendesse às suas demandas econômicas e sociais. Apenas seis meses após assumir o poder e encerrar duas décadas de governos socialistas, o presidente de centro-direita Rodrigo Paz enfrenta fortes protestos e bloqueios rodoviários que cercam a capital, La Paz, há mais de duas semanas.
A população protesta contra a pior crise econômica desde os anos 1980, marcada por uma inflação de 14%, repressão violenta contra camponeses e o fim dos subsídios aos combustíveis. Os confrontos entre a polícia e manifestantes (incluindo mineiros, operários e professores) paralisaram o comércio e geraram desabastecimento de alimentos, remédios e combustíveis. Um manifestante morreu nos confrontos.
A insatisfação aumentou após o governo fornecer um combustível de má qualidade que danificou mais de 10 mil veículos, quebrando a confiança da população. Segundo o analista político Hugo Moldiz, os protestos não são coordenados pela esquerda tradicional (como o partido MAS, de Evo Morales e Luis Arce), que está dividida e desgastada por erros estratégicos e disputas internas.
As manifestações são movidas por uma base social pulverizada e fragmentada, unida pela indignação econômica e por denúncias de arbitrariedades democráticas nas eleições. O capital político do ex-presidente Evo Morales encolheu drasticamente (estimado entre 16% e 19%) e ele se encontra isolado na região cocaleira de Cochabamba.
Ao Brasil de Fato, Moldiz disse não prever uma queda do governo ou antecipação de eleições, pois as mobilizações estão concentradas em La Paz e a maioria da população não deseja violar a Constituição. No entanto, por adotar uma agenda focada no conflito e não cumprir promessas, ele argumenta que o governo de Rodrigo Paz deve enfrentar uma crise prolongada e uma severa perda de governabilidade, dando continuidade à instabilidade política que o país vive desde 2019.
