A criação de um hub de grãos em Omã poderá ampliar, no futuro, as exportações de grãos russos para países da África Oriental. Ao mesmo tempo, o serviço regular lançado na rota Novorossiisk–Lagos–Dacar já reduz o prazo de entrega de cargas para 21 dias. A avaliação foi feita pelo economista internacional russo Vitali Meliantsev, membro correspondente da Academia Russa de Ciências, em comentário exclusivo à TV Brics.
“Uma primeira direção é a rota marítima direta Novorossiisk–Lagos. Esse projeto já entrou em fase prática. Também se discute a criação de um terminal na zona econômica nigeriana de Lekki, o que deve consolidar a rota como um canal permanente de comércio. A segunda direção é o hub de grãos em Omã para fornecimentos à África Oriental. Em 2026, o projeto se encontra em fase de elaboração e negociações. A lógica é usar o Oriente Médio como ponto de transbordo para os grãos russos, com posterior entrega aos países da África Oriental.”
O especialista destacou que os países do Brics ampliam de forma consistente os instrumentos para reduzir barreiras comerciais com a África. Além de rotas marítimas diretas e hubs de grãos, o grupo desenvolve corredores de transporte, mecanismos financeiros e programas educacionais.
Entre as soluções logísticas, está a adoção de plataformas digitais integradas, como a indiana Bharat Africa Setu, iniciativa comercial e logística com participação do governo da Índia, criada com o objetivo de dobrar o comércio entre o país e a África até 2030. Meliantsev também citou alfândegas inteligentes sem documentação em papel, que aceleram a circulação de cargas.
“O Corredor Internacional de Transporte Norte–Sul conecta a Rússia, o Irã e a Índia, reduzindo o tempo de entrega de cargas para a África. O Corredor Índia–Oriente Médio–Europa [Imec] cria uma cadeia alternativa de suprimento via Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, aliviando a logística. Já os ‘corredores minerais’ são um projeto de cadeias diretas de fornecimento de matérias-primas críticas, como cobalto e cobre, da África para países do Brics, com processamento local, e não apenas exportação do minério”, explicou Meliantsev.
O professor classificou o desenvolvimento da infraestrutura financeira como uma etapa especialmente relevante. Segundo ele, o sistema de pagamentos “Ponte Brics”, baseado em moedas digitais de bancos centrais, cria uma alternativa aos mecanismos internacionais existentes, como o Swift. Meliantsev afirmou ainda que a África do Sul já testa pagamentos transfronteiriços por meio desse sistema.
O especialista também chamou atenção para a formação de mais de 30 mil estudantes africanos em universidades russas, especialmente nas áreas de engenharia, geologia e medicina, o que fortalece o potencial de recursos humanos do continente.
“A África recebe não teóricos, mas profissionais práticos: engenheiros de minas para a extração de recursos minerais, especialistas em irrigação para a agricultura, médicos e farmacêuticos. Os formados não apenas retornam a seus países: eles se tornam transmissores de padrões e equipamentos russos. Muitos abrem laboratórios, implementam métodos russos de tratamento ou de manutenção de equipamentos. Hoje, os formados em universidades russas compõem a base técnica de ministérios e empresas estatais de muitos países africanos, como Angola, Etiópia, Moçambique e Nigéria”, acrescentou.
O economista também comentou a entrada do Egito e da Etiópia no Brics, bem como a cooperação da Nigéria e de Uganda com o grupo, como fatores que podem acelerar o crescimento econômico desses países. A participação no Brics abre acesso a financiamentos por meio do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o que ajuda a viabilizar projetos de infraestrutura e energia.
A Rússia continua sendo uma importante fornecedora de grãos e fertilizantes para a Tanzânia, a Nigéria e a Etiópia, contribuindo para fortalecer a segurança alimentar da região. Segundo o especialista, também se discute a modernização de um complexo metalúrgico na Nigéria com a participação de especialistas russos.
Meliantsev ressaltou que o Brics não impõe regras externas, mas se integra às estruturas africanas existentes. Segundo ele, atenção especial é dada à sincronização dos mecanismos logísticos e financeiros do grupo com a Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) e blocos regionais, como o Mercado Comum da África Oriental e Austral (Comesa) e a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).
