Geopolítica

‘Precisamos romper o cerco histórico imposto ao nosso continente’, afirma pensadora mexicana

Professora da UNAM, Ana Esther Ceceña analisa a disputa pelo sistema internacional e os caminhos do Sul Global

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II Fórum Acadêmico do Sul Global, em Xangai, reuniu mais de 200 pesquisadores e comunicadores de 30 países da Ásia, África, América Latina e Oriente Médio
III Fórum Acadêmico do Sul Global, em Xangai, reuniu mais de 200 pesquisadores e comunicadores de 30 países da Ásia, África, América Latina e Oriente Médio | Crédito: II Fórum Acadêmico do Sul Global

Romper interpretações tradicionais da história e abrir novas perspectivas para a América Latina. Essas foram algumas ideias defendidas pela pesquisadora mexicana Ana Esther Ceceña, professora do Instituto de Investigações Econômicas da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), durante sua participação no III Fórum Acadêmico do Sul Global, realizado em Xangai, na China.

O evento, que ocorreu entre os dias 13 e 14 de novembro, reuniu representantes de mais de 30 países da Ásia, África, América Latina e Oriente Médio, incluindo pesquisadores, jornalistas e comunicadores.

Uma das representantes da América Latina, Ceceña trouxe uma reflexão específica sobre a região, lembrando que os países latino-americanos estiveram historicamente confinados a um modelo de dependência política, histórica e cultural, que restringiu o diálogo com outros continentes e reforçou a influência do eixo euro-norte-americano.

Participar do fórum em Xangai representa, segundo a pesquisadora, a abertura de novos canais de cooperação e intercâmbio, capazes de desafiar essa estrutura histórica e ampliar a atuação da região no cenário global.

“É como essa conexão que existe com o resto do mundo, com todos os países do Sul Global. Ou seja, na América Latina não tivemos muito contato com os outros continentes porque sempre estivemos cercados sob o guarda-chuva dos Estados Unidos ou da Europa. Estamos dentro de um mundo ocidental há muito tempo. E vir a um fórum como este é justamente parte desses canais que ajudam a romper a sujeição ao Ocidente“, disse ao Brasil de Fato.

Debate atual e histórico

Um dos debates centrais do fórum foi o painel “Para além da Guerra Fria: o sistema de Yalta, as Nações Unidas e a ordem internacional do pós-guerra”, que revisitou o legado da Segunda Guerra Mundial, analisou o desgaste das instituições multilaterais e discutiu como as disputas geopolíticas atuais reproduzem desafios antigos para os países do Sul Global. Especialistas destacaram que a ordem internacional estabelecida após 1945 enfrenta tensões entre grandes potências, crises sobrepostas e o enfraquecimento da governança multilateral.

Para Ceceña, compreender o passado é essencial para interpretar os desafios atuais. Revisitar a Segunda Guerra Mundial, sobretudo considerando as narrativas asiáticas, permite reconhecer os protagonistas e os impactos reais do conflito, além de reposicionar a América Latina dentro de um panorama global mais amplo.

“Não reconhecemos onde esteve o verdadeiro desafio da Segunda Guerra. Dentro dessa narrativa, consolida-se a ideia de que existe um monstro, Adolf Hitler, e que o fascismo é derrotado quando Hitler desaparece. Mas, na realidade, embora a guerra combatesse o fascismo, ela buscava sobretudo deter o avanço do socialismo. Por exemplo, na Alemanha não se perseguia apenas os judeus: também se perseguia os comunistas, entre outros grupos”, aponta.

A pesquisadora também destaca o papel da União Soviética e da China na derrota do fascismo e ressalta que os países devem ser mais valorizados. “Os primeiros ataques ocorreram ali, e a partir disso todo o processo bélico se desenrolou, levando inclusive a mudanças muito importantes ao longo do conflito. Os chineses dizem: “Perdemos 30 milhões de pessoas”, e não é possível que isso não seja reconhecido como parte da guerra.”

“A Rússia tinha perdido muito na guerra, tinha sido profundamente atacada; de fato, acredito que as maiores batalhas ocorreram ali, de modo que não estava tão forte. Então nos perguntamos: a quem interessava que a União Soviética estivesse enfraquecida naquele momento? Obviamente àqueles que avançavam a fronteira do Ocidente em direção ao terreno asiático“, destaca Ceceña.

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