O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gilberto Maringoni, avalia que a ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela não tem relação com o combate ao narcotráfico, como a Casa Branca afirma. Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ele classificou a justificativa do presidente estadunidense Donald Trump como “absolutamente inverídica”.
“Se os Estados Unidos querem combater o narcotráfico, eles têm que primeiro basculhar, abrir o sistema financeiro norte-americano, que é por onde trafegam os milhões e bilhões de dólares do tráfico de drogas”, afirmou. Segundo ele, operações recentes da marinha dos EUA no Caribe atuam, na prática, como uma ameaça ao governo do presidente venezuelano Nicolás Maduro e à independência do país sulamericano em relação ao imperialismo estadunidense.
Para o professor, a nova Estratégia Nacional de Defesa, documento publicado anualmente pela Casa Branca, deixa claro que os EUA pretendem reconfigurar a correlação de forças no continente. “É um documento no qual os Estados Unidos reafirmam o seu caráter imperial sobre o mundo e dois terços dele são voltados para a sua hegemonia na América Latina”, indicou.
Segundo Maringoni, o objetivo é barrar a presença da China, hoje principal parceira comercial de boa parte dos países da região, começando justamente pela Venezuela.
Maringoni também alertou para o risco real de uma escalada militar. Embora veja como improvável uma invasão terrestre, o professor não descarta ações de bombardeio contra a infraestrutura venezuelana. “Trump foi longe demais. Se ele recua agora, ele aparece como derrotado”, avaliou. Ele lembrou que a ofensiva tem deslocado porta-aviões e tropas desde agosto e que parte da população estadunidense tem reagido à possibilidade de um novo conflito. “Eles entram sempre no atoleiro. Entraram no Vietnã, no Afeganistão, e podem entrar no atoleiro na Venezuela”, destacou.
Diante disso, o pesquisador criticou duramente a posição do governo brasileiro, que estaria se alinhando às justificativas estadunidenses. “O Brasil age agora como um parceiro menor dos Estados Unidos”, lamentou.
Para ele, a política externa atual abandona a tradição de integração latino-americana dos primeiros mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Eu fiquei espantado com isso. Como o Brasil, que não tem guerra com ninguém, entra nessa e se subordina voluntariamente a Donald Trump?”, questionou.
Ao comentar a reação internacional, Maringoni afirmou que a Europa tende a acompanhar os EUA através da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), com um aumento de gastos militares, enquanto países latino-americanos e caribenhos, como o México, Cuba e a Colômbia, têm manifestado mais solidariedade à Venezuela.
O professor ressaltou ainda a crescente rejeição à ofensiva dentro da própria sociedade estadunidense. “Está um imbróglio muito complicado no comando militar dos Estados Unidos, além do próprio Partido Republicano”, analisou. Segundo ele, mesmo figuras da extrema direita, como o ex-estrategista de Trump, Steve Bannon, têm criticado o risco de uma guerra no continente.
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