A ilha japonesa mais ocidental, Yonaguni, de Okinawa, está a apenas 110 quilômetros da costa da ilha de Taiwan. No arquipélago de Okinawa, os Estados Unidos concentram mais de 70% de suas bases militares no Japão, e é de lá que partiu, na sexta-feira (13), a 31ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais, enviada para a Ásia Ocidental em apoio à agressão estadunidense e israelense contra o Irã.
A militarização no arquipélago tem se intensificado nos últimos anos. Na Baía de Henoko, contrariando a vontade da população local, avança a construção de uma nova base para aeronaves Osprey e caças F-35. Em Yonaguni, o Japão planeja instalar baterias de mísseis terra-ar de médio alcance.
Esse processo ganhou um impulso com o novo governo japonês. Em novembro de 2025, a primeira-ministra Sanae Takaichi afirmou na Dieta, o parlamento japonês, que um eventual bloqueio naval chinês a Taiwan constituiria uma “situação de ameaça existencial” ao Japão, termo técnico de uma lei de 2015, aprovada sob protestos de juristas que a consideraram inconstitucional, que autorizaria o país a intervir militarmente em conflitos alheios. A lei foi aprovada no governo do mentor de Takaichi, Shinzo Abe.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o chefe da Divisão Internacional do Partido Trabalhista de Taiwan, Zang Ruxing, diz que o Japão está incentivando a ilha ao conflito militar. “Na prática, isso [as declarações de Takaichi] pode ser visto como um encorajamento ao Partido Democrático Progressista, como dizendo: ‘não importa se vocês continuarem a confrontar a China, ou mesmo se escalarem os conflitos; eu vou apoiá-los com força militar'”, afirmou ao Brasil de Fato. “Isso tem o efeito de intensificar ainda mais as tensões entre os dois lados do estreito e levar o Partido Democrático Progressista a provocar ainda mais a China continental.”
Separatismo em Taiwan
O atual líder taiwanês Lai Ching-te gerou indignação ao elogiar publicamente o período de colonização japonesa da ilha. “O Japão colonizou Taiwan para fazer avançar a Esfera de Co-Prosperidade da Grande Ásia Oriental. O governo nacionalista do Kuomintang veio a Taiwan da mesma forma, tratando a ilha apenas como trampolim para retomar o continente. E especialmente após a chegada do governo do Kuomintang a Taiwan, a forma como tratou o povo taiwanês foi ainda pior do que sob o domínio colonial japonês”, declarou Lai.
As declarações causaram indignação não apenas na China continental, mas entre os próprios moradores da ilha. A Esfera de Co-Prosperidade da Grande Ásia Oriental foi o projeto imperialista japonês: a fachada ideológica para justificar a ocupação militar, exploração econômica e enormes crimes de guerra contra países asiáticos sob o pretexto de “libertação” do colonialismo ocidental.
Para Zang Ruxing, a questão de Taiwan é um problema internacional. “Em Taiwan existe há muito tempo dentro de uma dupla estrutura: o conflito civil entre o Kuomintang e o Partido Comunista, e o contexto mais amplo da Guerra Fria. As questões históricas desse conflito interno poderiam ser resolvidas agora. Se não fosse pela intervenção de potências estrangeiras, acreditamos que, com base no princípio de Uma Só China, ambos os lados poderiam se comunicar e cooperar para superar as divisões do passado. Mas atualmente o principal obstáculo é o envolvimento dessas potências, que reforça a dinâmica da Guerra Fria e transformou a questão de Taiwan num grave ponto de tensão”, explica Zang.
A narrativa da ameaça
Hiroshi Taniyama, conselheiro do Centro Internacional de Voluntariado do Japão, aponta que a narrativa da suposta “ameaça chinesa” foi construída progressivamente para justificar a expansão militar japonesa, num processo que se acelerou a partir de 2010 em alinhamento com os Estados Unidos, que estava prestes a lançar a estratégia militar conhecida como “Giro para a Ásia”.
“A partir dos anos 2000, especialmente em torno de 2010, com a chamada ‘mudança para o sudoeste’, quando as Forças de Autodefesa deslocaram o foco estratégico de Hokkaido para as ilhas do sudoeste, a narrativa da ameaça chinesa começou a se fortalecer de forma notável. Para promover esses ajustes, era necessário que o povo japonês internalizasse ideias como: ‘a China é muito perigosa’ ou ‘precisamos nos defender da China’. Só assim a expansão militar continuada poderia ser justificada”, explicou.
Com a “mudança para o sudoeste”, o Japão decidiu transferir o foco militar do norte do país, antes voltado para a União Soviética durante a época da Guerra Fria, para as ilhas do sudoeste, no Mar do Sul da China.
Okinawa, entre a imposição e a luta contra a manipulação
Takamatsu Gushiken é integrante da organização Batalha de Okinawa Nunca Mais e voluntário na recuperação dos restos mortais de vítimas da guerra. Para ele, o papel da mídia corporativa japonesa é central na construção do medo em relação à China entre os okinawanos. “Alguns temem que, se as forças japonesas e estadunidenses se retirarem, as forças chinesas possam entrar. Essa preocupação surge porque as informações que o povo de Okinawa recebe hoje vêm quase que exclusivamente da mídia corporativa japonesa, que retrata repetidamente a China como um país perigoso ou assustador. Mas acredito que a questão central é saber se essas informações são de fato precisas. Não podemos nos basear em uma única perspectiva, temos que dialogar com o lado chinês”, disse.
Gushiken guarda memórias vívidas do papel imposto a Okinawa nas agressões militares dos EUA. “Quando eu ainda estava no ensino fundamental, via formações de bombardeiros B-52 decolando de Okinawa todos os dias, seguindo em direção ao Vietnã. O som era enorme, e assim que eu ouvia aquele rugido, eu sabia: estão voando para o Vietnã de novo. Vi também diversas formações que partiram completas e voltaram com um avião faltando”, relatou.
“Sentia fortemente que as forças estadunidenses estacionadas em Okinawa estavam matando muitas pessoas no Vietnã, e que os sacrifícios que Okinawa havia suportado estavam sendo repetidos no Vietnã, no Afeganistão e em outros lugares. Isso sempre me encheu de profunda tristeza.”
Para Zang Ruxing, o povo okinawano organizado tem uma compreensão precisa das ameaças que enfrenta, forjada por décadas de experiência direta. “Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com o início da Guerra Fria, foi atribuído ao povo de Okinawa o papel de conter a União Soviética e a China. O sentido de crise e a experiência como vítimas começaram aí, não porque a China tenha crescido recentemente, ou por causa da chamada ‘ameaça chinesa’. Para entender essa questão, acredito que o povo de Okinawa tem uma consciência mais profunda e clara do que qualquer outra pessoa”, concluiu.