Policiais da tropa de choque confrontaram manifestantes nesta segunda-feira (18) durante uma marcha de trabalhadores que exigem a renúncia do presidente de centro-direita da Bolívia, Rodrigo Paz, pressionado por bloqueios que cercam La Paz há mais de duas semanas. Analistas ouvidos pelo Brasil de Fato apontam a violência contra o campesinato e a agenda negativa de Paz como causas do descontentamento.
Seis meses após assumir o poder e encerrar quase 20 anos de governos socialistas, Paz enfrenta protestos e bloqueios de estradas liderados por camponeses, operários, mineiros e professores. Os manifestantes exigem medidas contra a pior crise econômica do país desde a década de 1980, agravada pela inflação de 14% e pelo fim dos subsídios aos combustíveis.
Milhares de pessoas marcharam por La Paz. A mobilização provocou o fechamento do comércio e confrontos com a polícia, que usou gás lacrimogêneo contra explosivos e pedras atirados por mineiros. A tensão se agravou com a chegada de apoiadores do ex-presidente Evo Morales e com bloqueios em pelo menos 28 pontos rodoviários, que causaram escassez de alimentos, remédios e combustíveis. Um manifestante morreu em confrontos no sábado (16).
O analista político Hugo Moldiz afirma que Paz errou ao atacar os quase 20 anos de governos anteriores com base em acusações de corrupção e narcotráfico, o que acabou por marginalizar a base social que protagonizou as lutas históricas do período. A insatisfação cresceu com a má gestão no fornecimento do combustível apelidado de “gasolina lixo”, que danificou mais de 10 mil veículos, e com o reajuste de preços após a retirada dos subsídios herdados do governo de Luis Arce.
“Os processos históricos são o resultado da expressão e da condensação da luta social do ator coletivo, e não das virtudes ou das ações de um super-herói. Ao desqualificar esse período com temas como corrupção e narcotráfico, ele estava desqualificando a população”, disse Moldiz, que foi ministro de Evo Morales em 2015.
“Ele também não cumpriu rapidamente com o que havia sinalizado, ou pelo menos não da maneira adequada: ‘normalizou’ o fornecimento de gasolina, mas entregando uma gasolina da pior qualidade, que danificou mais de 10 mil veículos. Com isso, as pessoas sentiram que o governo não havia dito a verdade”, afirma.
Para Moldiz, foram os setores com tradição de organização e mobilização que foram às ruas. “Nos setores urbanos também há inconformidade, mas eles não possuem essa mesma tradição. Tudo isso fez com que se pedisse a renúncia”, afirma.
Michel Rojas, líder da Federação Chimore em Cochabamba e aliado de Morales, acusa o governo de usar as Forças Armadas e a polícia para “reprimir, atacar e matar” manifestantes. O cocaleiro defende que as marchas em direção a La Paz visam proteger “a Constituição, a soberania e os recursos naturais do país”. “Não se pode criminalizar nem demonizar a luta dos nossos irmãos camponeses; pelo contrário, é preciso dar uma solução”, afirma Rojas.
Como anda a esquerda boliviana hoje?
Para Moldiz, a esquerda tradicional (em especial o Movimento ao Socialismo (MAS), de Morales e Arce, que governou a Bolívia de janeiro de 2006 a novembro de 2025) está dividida e perdeu legitimidade junto às bases populares. Os erros estratégicos recentes incluem a antecipação da disputa eleitoral, guerras internas, a campanha pelo voto nulo e o apoio a Rodrigo Paz sob a lógica do “mal menor”.
“É um erro pensar que a esquerda está por trás desses protestos contra o governo de Rodrigo Paz. Eu gostaria de dizer que sim, mas a verdade é que a esquerda hoje está não apenas dividida e fragmentada, mas também carece de legitimidade perante a base social popular”, afirma. “Cometeram-se muitos erros durante vários anos, o que se traduziu em uma derrota política com alcances estratégicos.”
Moldiz afirma que protestos atuais não são liderados por um comando único da esquerda orgânica, mas sim por uma “esquerda social” pulverizada. Trata-se de uma articulação fragmentada de setores sociais (camponeses, professores, cooperativistas, indígenas) com demandas corporativas distintas e isoladas.
Já o sindicalista Michel Rojas exemplifica o descrédito com a política do país. Ele afirma que “embora a democracia tenha sido suprimida nas eleições nacionais anteriores, devido ao desrespeito aos partidos de esquerda e aos candidatos da Bolívia profunda e das maiorias, o mesmo fenômeno ocorreu nestas eleições subnacionais. De maneira surpreendente, com um percentual mínimo de votos, elegeu-se o governador do departamento de La Paz.”
“A vitória pertencia claramente a um cidadão camponês, legítimo representante da Bolívia profunda. No entanto, para violar seu direito, cassaram a legenda de seu partido, retirando-o da disputa e empossando um governador com menos de 20% dos votos. De que democracia se pode falar quando o governo central, liderado por Rodrigo Paz, encarregou-se de eliminá-la por completo?”, pergunta, afirmando que “muitos cidadãos mobilizados no departamento de La Paz e em toda a Bolívia levantaram-se contra essas arbitrariedades, ataques e medidas econômicas que prejudicam as famílias”, diz.
E o futuro?
Moldiz não prevê ruptura constitucional nem antecipação de eleições. “Esta é uma mobilização concentrada principalmente em La Paz, a sede do governo, embora esse fato por si só já seja um fator a se considerar. No resto do país, não está acontecendo absolutamente nada”, diz.
O analista acredita que a maior parte da população não quer uma alteração da ordem democrática e cita o referendo revogatório de meio de mandato como mecanismo constitucional disponível. “Não creio que haja uma disposição favorável a uma corrente que obrigue a ignorar o que está estabelecido pela Constituição. Não vejo essa possibilidade”, diz.
Para o analista, ao adotar uma “agenda negativa” focada no conflito, o governo Paz perdeu a oportunidade de estabelecer horizontes positivos. A tendência, segundo ele, é a perpetuação da crise iniciada em 2019, com a renúncia de Evo Morales, com impasses sucessivos que devem minar a capacidade de governar.
Moldiz avalia que o capital político de Morales encolheu drasticamente. Sua base de apoio eleitoral estimada é de 16% a 19%, distante dos mais de 60% que obteve no passado. Seu grupo de apoiadores é atualmente marcado pelo culto à personalidade.
Refugiado na região cocaleira de Cochabamba, Morales enfrenta acusações de crimes sexuais alegadamente ocorridos durante seu governo.
