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Evo Morales sugere ao presidente boliviano vetar privatizações para pôr fim a semanas de protestos

Enfrentando pior crise econômica desde os anos 1980, país tem 44 pontos de bloqueio e escassez de alimentos em La Paz

Mineiros pedem a renúncia do presidente em La Paz, nesta quinta (21)
Mineiros pedem a renúncia do presidente em La Paz, nesta quinta-feira (21) | Crédito: Marvin Recinos/AFP

O ex-presidente boliviano Evo Morales sugeriu nesta quinta-feira (21) que o atual mandatário, Rodrigo Paz, se comprometa a não privatizar recursos ou serviços estatais. A medida, segundo Morales, ajudaria a pôr fim aos protestos pelo país, que já entraram na terceira semana.

“Rodrigo, sr. presidente, por que o senhor não convoca a COB (Central Operária Boliviana), todos os setores, agora mesmo? Assine: Não privatizarei nenhum recurso natural — lítio, gás, ferro, terras raras”, propôs durante seu programa de rádio.

Ele pediu que, como prioridade, o presidente de direita se comprometesse a não privatizar saúde e educação, mas também mencionou outros serviços.

“Agora mesmo, que ele assine um documento publicamente diante da população: ele não privatizará eletricidade, telecomunicações ou água. Isso diminuirá a tensão”, afirmou. Segundo Morales, o governo aposta no cansaço dos manifestantes, mas ele não acredita que isso acontecerá.

“O povo está se rebelando, que perda de tempo! Duvido que os manifestantes se cansem”, disse.

Longe de Evo, perto de Trump

No dia anterior, quarta-feira (20), Rodrigo Paz anunciou mudanças em seu gabinete de ministros para incluir setores sociais, em uma tentativa de apaziguar os protestos que exigem sua renúncia apenas seis meses após assumir o poder. Em sua primeira aparição diante da imprensa em quase uma semana, o mandatário também anunciou a criação de um “conselho econômico e social”, uma instância para construir consensos sobre o rumo que seu governo propõe para o país.

“Temos que reorganizar um gabinete que precisa ter capacidade de escuta”, afirmou em entrevista coletiva no Palácio do Governo, em La Paz, sem especificar quando serão realizados os ajustes em sua equipe.

O ministro do Trabalho, Edgar Morales Mamani, colocou seu cargo à disposição para “pacificar o país”, permitir o diálogo e preservar a democracia diante dos fortes distúrbios sociais. Ele foi o primeiro a se afastar após o presidente anunciar que faria mudanças no gabinete ministerial.

Morales, que havia assumido o cargo em 9 de novembro de 2025, vinha sendo muito criticado pela Central Operária Boliviana (COB) por travar as demandas dos setores trabalhistas. Semanas atrás, manifestantes do setor fabril chegaram a invadir o Ministério do Trabalho para exigir sua saída, exigindo a evacuação do local pela polícia.

O governo de Rodrigo Paz acusa os manifestantes de tentarem alterar a ordem democrática e aponta o ex-presidente Evo Morales como o orquestrador dos protestos. O governo recusa diálogo com “vândalos”, enquanto o principal sindicato do país (COB) convocou novas marchas.

A Bolívia enfrenta sua pior crise econômica desde os anos 1980, agravada pelo fim dos subsídios aos combustíveis e uma inflação de 14% (em abril). Com pelo menos 44 pontos de bloqueio nas estradas, a capital La Paz sofre com o desabastecimento e a alta de preços de alimentos, combustíveis e remédios. Para mitigar a situação, o governo acionou uma ponte aérea de suprimentos e planeja um “corredor humanitário” com ação policial.

Os Estados Unidos manifestaram forte apoio a Paz. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou que não permitirá a derrubada de líderes eleitos por “criminosos e narcotraficantes”. A Bolívia expulsou a embaixadora da Colômbia após críticas do presidente Gustavo Petro, que chamou os protestos de “insurreição popular”. Em resposta de reciprocidade, a Colômbia também encerrou as funções do embaixador boliviano em Bogotá.

Avião de Milei para reprimir?

O governo boliviano informou que o avião Hércules, cedido pela Argentina, chegou ao país vazio, tendo como único objetivo realizar uma ponte aérea para transportar alimentos e insumos essenciais devido aos bloqueios nas estradas. O pronunciamento oficial ocorreu após o deputado Rolando Pacheco denunciar que aeronaves vindas da Argentina e do Equador estariam, na verdade, transportando agentes químicos (como gás lacrimogêneo) para reprimir os protestos no país.

O Executivo e o presidente Rodrigo Paz desmentiram categoricamente qualquer tipo de cooperação militar ou envio de armamentos, classificando as acusações como falsas e irresponsáveis.

Já outro avião, da Força Aérea do Chile, pousou nesta quinta-feira no aeroporto de El Alto trazendo 5 toneladas de alimentos para mitigar a crise de desabastecimento em La Paz e El Alto provocada pelos bloqueios de estradas. Uma segunda aeronave chilena é esperada na sexta-feira (22) com mais 5 toneladas de suprimentos.

Editado por: Thaís Ferraz

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