O recente anúncio de que o Brasil alcançou o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de sua história recoloca no centro do debate público uma velha contradição do Estado brasileiro: crescemos enquanto país, mas seguimos profundamente desiguais enquanto sociedade.
O país melhora seus indicadores econômicos e sociais, amplia acesso à educação, eleva a expectativa de vida e fortalece importantes mecanismos de inclusão. Entretanto, as desigualdades entre regiões, gênero e raça continuam estruturando a experiência concreta da maioria da população brasileira, o que classifico como “Maioria Minorizada”.
O Brasil melhora suas médias estatísticas, mas preserva intactas as engrenagens históricas da exclusão. É aí que reside o limite do modelo brasileiro de desenvolvimento.
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Há décadas, o movimento negro, intelectuais críticos e lideranças dos territórios populares denunciam que o crescimento econômico brasileiro sempre conviveu com uma profunda concentração racial de riqueza, poder e oportunidades. O capitalismo periférico nacional demonstrou enorme capacidade de produzir crescimento sem democratizar estruturalmente a sociedade. Mais do que isso: historicamente, produziu desenvolvimento justamente a partir da exploração racializada do trabalho, da exclusão territorial e da precarização da vida negra.
O topo da pirâmide econômica continua majoritariamente branco. Os espaços de decisão política, financeira e tecnológica permanecem racializados. Norte e Nordeste seguem enfrentando déficits históricos de investimento. Mulheres negras continuam ocupando os postos mais precarizados do mercado de trabalho. A juventude negra permanece como principal vítima da violência letal do Estado.
Isso significa que o problema brasileiro nunca foi apenas econômico. Trata-se de um problema histórico de distribuição de poder.
Os atuais dados do IDH revelam simultaneamente avanço e fracasso. Avanço porque houve políticas públicas importantes nas últimas décadas, ampliação do acesso universitário, expansão de programas sociais e crescimento de determinados indicadores nacionais. Fracasso porque a estrutura racial da desigualdade brasileira permaneceu relativamente preservada.
O Brasil moderno continua funcionando a partir de mecanismos sofisticados de filtragem social. Melhoram-se os índices gerais sem alterar profundamente as estruturas que determinam quem acessa riqueza, conhecimento, segurança, mobilidade e reconhecimento social.
Por isso, talvez seja impossível pensar o futuro brasileiro sem recolocar o debate das reparações no centro do projeto nacional.
E aqui é importante compreender: reparação não significa apenas indenização financeira ou reconhecimento simbólico da escravidão, ainda que isso seja de extrema importância. Reparação significa reorganização estrutural das relações econômicas, sociais, culturais e políticas produzidas pelo colonialismo e pela racialização da sociedade brasileira.
Tenho defendido aquilo que chamo de economia da reparação. Trata-se da compreensão de que as desigualdades raciais não são acidentes históricos nem desvios ocasionais do desenvolvimento nacional. Elas são parte constitutiva do próprio modelo de acumulação brasileiro.
O Brasil foi erguido sobre a escravidão, sobre o tráfico transatlântico e sobre a construção de uma ordem social que transformou raça em tecnologia de organização econômica. Isso não desapareceu com a abolição formal. Apenas se reorganizou institucionalmente ao longo do século 20 e chegou ao século 21 operando novas formas de exclusão, agora mediadas também pela tecnologia, pelo sistema financeiro, pela concentração educacional e pelas assimetrias territoriais.
É impossível compreender o Brasil contemporâneo ignorando esse processo.
Ao mesmo tempo, o debate internacional começa a apontar novos caminhos. O pan-fricanismo contemporâneo, fortalecido pelas articulações recentes da União Africana e pelos debates internacionais sobre reparações, soberania e reorganização geopolítica, vem demonstrando que desenvolvimento não pode ser separado da redistribuição global de poder.
O que diferentes países africanos vêm afirmando é que não existe soberania sem controle econômico, tecnológico, cultural e epistêmico. Não existe desenvolvimento real sem enfrentar as heranças estruturais do colonialismo. O Brasil deveria observar esse movimento com atenção.
Somos uma das maiores populações negras do planeta fora da África. Nossa formação econômica, cultural e social está profundamente conectada à diáspora africana. Ainda assim, seguimos operando um modelo de desenvolvimento que frequentemente transforma a população negra em base estatística da pobreza enquanto celebra índices macroeconômicos nacionais.
Existem múltiplos Brasis coexistindo no mesmo território.
Há um Brasil integrado aos circuitos financeiros globais, às tecnologias digitais e às dinâmicas contemporâneas da economia internacional. E há outro submetido à insegurança alimentar, à violência cotidiana, à ausência de saneamento básico e à precarização estrutural da vida.
Essa divisão possui cor, território e classe.
As desigualdades raciais não podem mais ser tratadas como externalidades sociais do crescimento econômico. Elas são centrais para compreender os limites históricos da democracia brasileira.
Sem enfrentar a concentração racial da riqueza e do poder, qualquer avanço social permanecerá parcial, instável e permanentemente ameaçado. Por isso, a reparação precisa deixar de ocupar apenas o campo simbólico e transformar-se em eixo estruturante de um novo projeto nacional de desenvolvimento.
Reparar significa investir massivamente em educação pública antirracista, ciência, tecnologia, universidades e inovação voltadas às maiorias populares. Significa fortalecer territórios periféricos, quilombolas e comunidades tradicionais. Significa democratizar acesso ao crédito, à terra, às plataformas digitais, à produção de conhecimento e às novas economias do século 21. Mas significa também disputar o próprio imaginário sobre o que entendemos como desenvolvimento.
Durante décadas, construiu-se a ideia de que o crescimento econômico resolveria automaticamente as desigualdades brasileiras. A experiência histórica demonstra exatamente o contrário: crescimento sem democratização estrutural apenas reorganiza privilégios.
O país cresce, mas cresce concentrando renda. Produz riqueza, mas distribui precarização. Melhora indicadores, mas preserva hierarquias coloniais. Talvez a grande pergunta colocada pelos atuais dados do IDH seja exatamente esta: desenvolvimento para quem?
Os números podem e devem ser celebrados. Mas não podem servir como anestesia social diante das estruturas históricas que continuam organizando a desigualdade brasileira.
Sem justiça racial, não haverá desenvolvimento plenamente democrático no Brasil.
*Richard Santos é escritor, pesquisador, docente e extensionista da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), onde atua como professor nos Programas de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais e em Estado e Sociedade. Possui Pós-doutorado em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e Mestrado em Comunicação pela Universidade Católica de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo. Diretor Regional Nordeste da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Autor do livro “Maioria Minorizada: um dispositivo de racialidade”.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
